Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Contos e ditos

A escrita é aquilo que eu sou. Por vezes, escrevo contos, outras vezes desabafos, um ou outro texto breve, alguns dias, poemas. Eu encontro-me na prosa, perco-me na poesia. Sempre de um jeito livre, simples e despretensioso, porque eu sou assim.

Contos e ditos

A escrita é aquilo que eu sou. Por vezes, escrevo contos, outras vezes desabafos, um ou outro texto breve, alguns dias, poemas. Eu encontro-me na prosa, perco-me na poesia. Sempre de um jeito livre, simples e despretensioso, porque eu sou assim.

18
Dez18

Um pesadelo de Natal

Inês Aroso

nicholas-shoe-3012801_960_720.jpg

Autor: José Marques

Vencedor ex-aequo do Concurso de Natal(idade)

 

Era véspera de Natal…
A minha avó estava muito atarefada com a ceia.
O meu avô ajudava a minha avó e entre uma coisa e outra a garrafa dos Três Velhotes lá ia ficando vazia.
O meu avô estava muito contente. Assobiava e cantarolava… petiscava e mais um gole dos Três Velhotes… olhava para mim e piscava-me o olho… o meu avô gostava mesmo do Natal, pensava eu.

E que cheirinho estava naquela velha cozinha!
O meu avô partia o pão velho às rodelas e cantarolava.
A minha avó mergulhava o pão velho numa bacia com chá preto, vinho do porto, açúcar e mel. Depois pegava no pão e passava noutra bacia com ovos, vinho do porto, açúcar e mel. Por fim, a minha avó metia o pão velho num grande taxo a fritar!…
Chamavam-lhe rabanadas àquele pão velho frito polvilhadas com canela. E o cheiro corria toda a casa.
E depois das rabanadas, fizeram os formigos e aletria! Toda a tarde a preparar a ceia. Que trabalheira!

- O natal é uma festa muito importante – disse-me o meu avô – Sabes porquê, Zezito? – piscou-me o olho.

Eu escutava-o muito atento.

- Neste dia nasceu o Menino Jesus em belém e por isso temos que fazer uma festa! – disse-me ele.

Que estranho pensava eu. No meu aniversário havia apenas um bolo e cantava-se os parabéns a você. Não havia rabanadas, nem formigos, nem aletria.
O Menino Jesus devia ser uma criança muito especial.

- À meia noite o Menino Jesus vem por uma prenda no teu sapatinho – voltou-me a piscar o olho.

Que estranho, pensava eu mais uma vez.
Quando fazemos anos o pai e a mãe, o avô e a avó, o tio e a tia, dão-nos prendas… o Menino Jesus faz anos e vem a nossa casa dar-nos prendas… que coisa tão estranha!
O Menino Jesus devia ser mesmo uma criança muito especial.

- Não te esqueças de por o teu sapatinho junto a chaminé – continuou ele –é por lá que ele entra!

Mais uma coisa estranha que o Menino Jesus faz. Porque é que ele entra pela chaminé e não pela porta como todas as pessoas?
O Menino Jesus não deve bater bem da cabeça!

A minha avó sorria.
O avô beijou a avó e piscou-me o olho.
Até os Três Velhotes da garrafa pareciam contentes.
Nunca vi os meus avós zangados. Era um casal feliz. Diria mesmo que eram casados à primeira vista!

As batatas e o bacalhau estavam a cozer na panela de três pernas no lume da lareira quando chegaram os tios e as tias, mais os primos. O pai e a mãe chegaram logo depois. O avô trouxe copos e ofereceu-lhes os Três Velhotes. Estavam todos muito contentes!
O aniversário do Menino Jesus era mesmo um dia especial.

- Todos para a mesa – gritou a avó da sala de jantar.

Estavam todos muito animados. Comiam as batatas com bacalhau e bebiam. Depois das batatas e do bacalhau, vieram para a mesa as rabanadas, os formigos e a aletria. Todos conversavam e riam. O meu avô de todos é o que estava mais alegre. Estava sempre a piscar-me o olho e ria.
Eu começava a ter sono. Já era tarde e nada de cantar os parabéns a você ao Menino Jesus.

- Zezito não te esqueças do teu sapatinho junto à chaminé! – lembrou-me o avô.

O relógio batia as 12 badaladas. Já é meia noite! Será que o menino Jesus já veio por a prenda no meu sapato, perguntava-me.
Saltei da cama e pé ante pé, dirigi-me para a porta da cozinha. Abri-a devagarinho sem fazer muito barulho e corri para junto da chaminé.
Às apalpadelas tentava encontrar o meu sapato e encontro um pé…
Um calafrio percorreu-me a espinha. Olho para cima e vejo alguém com um grande rabo vestindo as cuecas da avó…

- Menino Jesus? – gaguejei.

Virou-se de frente para mim…
Aquela grande pança redonda, aquelas bochechas rosadas e aquele grande sorriso que eu tão bem conhecia.

- Avô! – gritei.

À minha frente, lá estava toda a família à volta da lareira.
O meu avô, de copo na mão, piscou-me o olho.

- Zezito, não te esqueças de por o teu sapatinho junto da chaminé – exclamou.

Foi um pesadelo… sim, um grande pesadelo… nunca tinha tido um pesadelo assim… ufa!
O avô com as cuecas da avó!
O melhor será esperar que amanheça!

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.