Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Contos e ditos

A escrita é aquilo que eu sou. Por vezes, escrevo contos, outras vezes desabafos, um ou outro texto breve, alguns dias, poemas. Eu encontro-me na prosa, perco-me na poesia. Sempre de um jeito livre, simples e despretensioso, porque eu sou assim.

Contos e ditos

A escrita é aquilo que eu sou. Por vezes, escrevo contos, outras vezes desabafos, um ou outro texto breve, alguns dias, poemas. Eu encontro-me na prosa, perco-me na poesia. Sempre de um jeito livre, simples e despretensioso, porque eu sou assim.

28
Mai18

Nota de rodapé

Inês Aroso

book-1210030_960_720.jpg

Sara questiona-se sobre o sentido da vida. Até parece um cliché! Para quê tudo isto? Para quê tanto sacrifício, em troca de breves momentos de felicidade?".

O tempo que passa duplica as lágrimas. Os sorrisos são cada vez mais escassos e forçados. A paciência, que esbanjava, vai fugindo a cada dia, como a areia entre os dedos, quando a tentamos agarrar. Tudo custa. Tudo é árduo. Tudo menos dormir. Ou, pelo menos, fingir que dorme.

Deixou de ser a protagonista da sua própria vida. Deixou de ter uma história para viver e, quem sabe, contar. A vida passa-lhe ao lado. Sente não fazer falta a ninguém, já que não faz parte de qualquer história. 

"Vira a página", dizem-lhe os outros, convictos. Não percebem que ela está lá, no fundo de cada página, sempre. Passou a ser uma nota de rodapé, daquelas bem pequenas, em letra miudinha, que ninguém tem paciência, ou capacidade, para ler. Ninguém a lê, mas ela está lá.

Naquele que parecia um dia igual aos outros, de mais um encontro entre amigos, um deles, Vasco, repara na nota de rodapé. Fica estupefacto, era raro encontrar textos naquele idioma. Mas ele traduz. Vê página por página. Amplia as letras. Percebe a história. Sim, porque, afinal, Sara tem uma história. História essa demasiado bonita e complexa para caber numa nota de rodapé.

Vasco pede a Sara para escrever um livro. Ela dá-lhe um rascunho e ele edita-o.Traduz esse esboço para a língua das pessoas felizes. Aumenta o tamanho da letra, dá cor às páginas, troca as palavras contidas por aquelas que ela não ousava usar, sobe-a à categoria de protagonista. Sara reaprende a escrever. Reaprende a viver. Há novos cheiros, novos sons, novos sabores, novas imagens, novas sensações... Sempre estiveram lá, afinal. 

Antes de pedirem a alguém para virar a página, verifiquem se essa pessoa não está lá, bem no fundinho do (que parece ser o) texto principal, a gritar por ajuda. Ninguém quer ser uma nota de rodapé.