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Contos e ditos

A escrita é aquilo que eu sou. Por vezes, escrevo contos, outras vezes desabafos, um ou outro texto breve, alguns dias, poemas. Eu encontro-me na prosa, perco-me na poesia. Sempre de um jeito livre, simples e despretensioso, porque eu sou assim.

Contos e ditos

A escrita é aquilo que eu sou. Por vezes, escrevo contos, outras vezes desabafos, um ou outro texto breve, alguns dias, poemas. Eu encontro-me na prosa, perco-me na poesia. Sempre de um jeito livre, simples e despretensioso, porque eu sou assim.

11
Ago18

Escrito na parede

Inês Aroso

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Caminhando a passo apressado, Patrícia revia a lista mental de tudo o que podia ou não dizer quando encontrasse Filipe. Não lhe queria admitir que passava ali de propósito, mais uma vez, para o encontrar. Tinha a desculpa perfeita: ia à lavandaria. Levava os sacos de roupa suja como ajudantes. O escritório onde ele trabalhava era mesmo em frente. Espreitou, na montra, não o viu. "Bolas, mais uma viagem em vão", pensou, desanimada.

Pousou os sacos, a olhar para a máquina da lavandaria self-service. Modernices que lhe lembravam os filmes românticos americanos de final previsível. "Pois, os filmes! Só nos criam ilusões parvas: encontramos um amor numa lavandaria", resmungou, para si mesma, enquanto metia a roupa na máquina.

Resolveu sentar-se, fechar os olhos e aproveitar para ouvir música até a máquina avisar que a missão estava cumprida. Dobrou a roupa sem pressas. "Até é melhor assim, se eu o visse, ia ficar com ideias... É o destino a avisar-me que não vale a pena lutar por causas perdidas! ", matutou, resignada. De roupa e alma lavadas, saiu sem olhar para o escritório de Filipe, rumo a casa.

No caminho, resolveu parar para tomar um café e um gelado na esplanada. "Eu mereço!", decidiu. Enquanto sentia a brisa suave fazer-lhe os cabelos esvoaçar, reparou num poema que alguém escrevera na parede, junto ao café. Era fã da rebeldia e da estética da mais democrática das artes: a que surgia nas ruas, para todos. Como era habitual, fotografou o achado. Como era habitual, lembrou-se de Filipe. Claro que não lhe enviou a fotografia a dizer que pensara nele quando lera aquilo. 

Já em casa, depois de arrumada a roupa, sentou-se no sofá, a rever as redes sociais. E sim, a ver se tinha alguma mensagem de Filipe. "Vi-te passar hoje, mas ias com pressa", disse-lhe ele. Patrícia sorriu e conversou um bocado com ele. E podia ter ficado por ali, mas resolveu ir ao perfil dele. E viu o poema que ela gostara no mural dele. "Que coincidência, ele também viu e gostou!". Mas o entusiasmo desvaneceu-se e transformou-se em mágoa, tristeza, talvez ciúmes ("Não sou dessas coisas", repetia para si mesma). Filipe realmente também reparara no poema, mas dedicara-o à mulher que amava. Para azar (ou sorte), de ambos, essa mulher não era Patrícia.

Patrícia resolveu tomar uma medida drástica. O poema não lhe saía da cabeça. O Filipe também não, mas a ele, ela já estava habituada: já fazia parte da mobília cerebral. Pela calada da noite, levou o balde de tinta que sobrara das remodelações e pintou por cima do poema escrito na parede. Como a tinta era de um tom amarelo torrado, pintou um grande sol por cima do poema. O luar iluminou o sol. E Patrícia pôde ir, enfim, dormir em paz.