Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Contos e ditos

A escrita é aquilo que eu sou. Por vezes, escrevo contos, outras vezes desabafos, um ou outro texto breve, alguns dias, poemas. Eu encontro-me na prosa, perco-me na poesia. Sempre de um jeito livre, simples e despretensioso, porque eu sou assim.

Contos e ditos

A escrita é aquilo que eu sou. Por vezes, escrevo contos, outras vezes desabafos, um ou outro texto breve, alguns dias, poemas. Eu encontro-me na prosa, perco-me na poesia. Sempre de um jeito livre, simples e despretensioso, porque eu sou assim.

25
Jan18

Ana e Tiago

Inês Aroso

hotel-575085_960_720.jpg

Nessa tarde, pararam em Monsanto para desanuviar. Tinham passado a manhã inteira enclausurados num daqueles edifícios modernos, labirínticos e claustrofóbicos de Lisboa. Era mais uma formação que nada trazia de novo, mas eram obrigados a ir.

- "Como achas que vai ser quando formos para cama?", perguntou-lhe Tiago.

- "Mas que raio de pergunta é essa? Vai ser bom!", riu-se Ana.

- "Não é isso... Vai ser calmo? Vai ser romântico? Vai ser à bruta?", insistiu.

- "Lamechas não vai ser certeza...", retorquiu. 

Ana desviou o assunto, as imagens que lhe passavam pela cabeça invadiam-lhe o corpo. Sentia o coração a pulsar por todas as zonas onde o imaginava a tocar-lhe.

No fundo, os dois sabiam que nunca poderiam passar das palavras aos actos. A história deles era tão confusa ou tão simples como isso: viviam desencontrados. Estiveram nos sítios certos às horas erradas, fizeram as coisas erradas com as pessoas certas, tinham tudo para não se falar e eram bons amigos...

Às vezes entravam num jogo perigoso, mas inevitável. Ela era impulsiva. Ele mais controlado. Ele provocava-a. Ela fingia indiferença. Ela insinuava-se. Ele resistia. Ele tinha um humor corrosivo. Ela ria-se sozinha às gargalhadas. 

Anos depois, a vida trocou-lhes as certezas e convicções. Foram colocados no mesmo hotel, na convenção de farmacêuticos em que participavam, em Madrid. A barreira de distância que os protegia estava quebrada... Tiago trabalhava numa empresa na Suiça, Ana morava em Braga. Isto sempre os protegera da impetuosidade.

Ficaram contentes por se encontrarem. De vez em quando, viam-se em locais públicos, por causa do trabalho. Estarem os dois, no mesmo hotel era uma estreia e parecia-lhes perigoso. Falaram de trivialidades, recordaram alguns momentos e decidiram ir jantar juntos, mesmo lá no hotel, para continuarem a conversa. Sempre foram confidentes um do outro e era um bom momento para porem as novidades em dia.

Ao fim da segunda garrafa de vinho, Ana começou a insinuar-se a Tiago. Era mais forte do que ela, não conseguia evitar. Mas sabia que ele resistia, por isso era uma brincadeira inconsequente.

- "Tu não podes mesmo beber... Ficas do piorio... Acho que vou ter que te acompanhar ao quarto", disse condescendente.

- "É mesmo isso que eu quero...", riu-se Ana, simulando que retirava a alça do vestido.

Subiram no elevador. Estavam ambos no oitavo piso. Ela agarrava-se a ele a fingir que se apoiava... Quando ele sentia que ela estava a tentar provocá-lo, afastava-a com uma firmeza delicada:

- "Tem juízo, mulher... Nós não vamos fazer nada"

Ana sorria... Sabia que ele não a queria afastar. Sentia o corpo dele a desejá-la. E isso bastava-lhe, por uns segundos.

- "Chegamos, o meu é o 809, podes ir embora descansado, mas ficavas melhor aqui", riu-se, à espera da reprimenda carinhosa com que ele sempre respondia às suas investidas.

- "Não me provoques mais, Ana... Estou no meu limite", e passou-lhe a mão pelo pescoço.

Ela aproveitou a trégua e pegou na mão dele. Desviou-a para baixo, pelo decote do vestido... Sabia que era um dos seus trunfos, ele sempre lhe dissera isso. Ele agarrou-a com a outra mão, para a afastar, mas sentia-se explodir, encostou-a à parede e subiu-lhe o vestido sofregamente, sentiu-lhe as ancas e aproximou-a dele. Ela gemeu de prazer e sussurrou: "É melhor... é melhor... abrimos a porta do quarto". Riram-se.

Estavam ali, no corredor. Não faziam ideia se alguém tinha visto, mas pouco lhes importava. Depois de duas ou três tentativas lá conseguiram abrir a porta. Ana achava que Tiago ia aproveitar aquela pausa para voltar a ser o homem sensato que não deixava as coisas avançarem.

- "Vai lá para o teu quarto, amanhã a conferência é às 9 horas", disse Ana, enquanto se descalçava e retirava os brincos.

Mas Tiago fartara-se de ser politicamente correto. Era certo que não queria estragar aquela amizade de anos. Era certo que não lhe podia prometer nada. Era certo que as coisas entre eles nunca poderiam dar certo numa relação convencional. Mas desejava-a. Sempre desejara... Mas naquela noite mais do que nunca. E se havia um momento para as coisas acontecerem, o momento era aquele.

- "Não digas asneiras, vem cá...", disse, com firmeza, e agarrou-a.

Ambos estava ávidos um do outro. Mas queriam aproveitar cada segundo daquele momento que provavelmente nunca se repetiria. E viveram-no assim. Primeiro ele, descobriu cada recanto do corpo de Ana, que estremecia de prazer, sem qualquer pudor ou preconceito. Em cada toque. Em cada entrega. Depois Ana percorreu o corpo de Tiago, com as mãos, com os lábios, com a língua. O gozo dele era evidente e cada vez mais protuberante. Chamava por ela. E ela abria-se numa fenda húmida para o receber. Tinham sede de experimentar uma e outra coisa. Um e outro encaixe. Terminaram exaustos, de cansaço e de desejo, quando ela o recebeu de joelhos e cedeu. 

Os seus corpos ofegantes e suados, enrolados nos lençóis, eram um cenário improvável para ambos. Ana olhava o tecto, pensativa e sentia necessidade de dizer algo:

 - "Lembras-te eu disse que seria bom se acontecesse..."

- "E tinhas dito que não seria lamechas e estamos de mãos dadas, como dois palermas"

Riram-se. Ambos tinham razão. 

- "E amanhã, miúda?", perguntou Tiago.

- "Amanhã, logo se vê, não te preocupes, já não tenho 20 anos"

- "Eu sei, nota-se".

E riram novamente.

O humor, sempre o humor, os tornara tão cúmplices. E foi o amor anti-burocrático que sentiam um pelo outro, além do humor, que permitiu que continuassem apenas (e tão) bons amigos na manhã seguinte e nos dias, semanas, meses e anos próximos. Sempre cúmplices. Num mundo só deles.