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Contos e ditos

A escrita é aquilo que eu sou. Por vezes, escrevo contos, outras vezes desabafos, um ou outro texto breve, alguns dias, poemas. Eu encontro-me na prosa, perco-me na poesia. Sempre de um jeito livre, simples e despretensioso, porque eu sou assim.

Contos e ditos

A escrita é aquilo que eu sou. Por vezes, escrevo contos, outras vezes desabafos, um ou outro texto breve, alguns dias, poemas. Eu encontro-me na prosa, perco-me na poesia. Sempre de um jeito livre, simples e despretensioso, porque eu sou assim.

01
Fev18

72 horas

Inês Aroso

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Ela

Falta 1 minuto. Olham o velho relógio da estação de comboios. Despedem-se com um beijo na face. E um abraço, sentido. Ela sente o cheiro dele e procura guardá-lo como se já não o soubesse de cor. Ele sente o cabelo despenteado dela a fazer-lhe comichão no nariz e sorri. Cada um ruma ao seu comboio.

Catarina carrrega a mochila entre os corredores apertados do comboio. Procura o seu lugar na carruagem. Quando finalmente está sentada junto à janela respira fundo. Percebe que as 72 horas acabaram. Já pode ligar o telemóvel. Mas em vez disso prefere fechar os olhos e centrar-se no regresso à vida real. E volta ao princípio daquela história. Tudo começara 5 meses antes.

 

Eles

Sentados à esplanada. Entre eles e o rio Douro, uma mesa com finos, amendoins e tremoços. É o pequeno luxo deles. Uma vez por mês, à sexta-feira, no final do trabalho, encontram-se ali. Conversam, dizem disparates e esquecem por uns momentos a corrida de todos os dias.

- "Só precisamos de 72 horas", diz ele.

- "Para quê? Para uma remodelação da casa?", ri-se.

- "Não... Para esquecer tudo... A mulher, o marido, as obrigações, o trabalho, os colegas, os filhos, os papéis que desempenhamos sempre, a toda a hora...", explicou.

- "As rotinas cansam...", concordou ela.

- "Sim, toda a gente devia ter direito a 72 horas por ano. Para si. Completamente livres de qualquer obrigação ou compromisso do quotidiano", declarou ele, entusiasmado.

- "Eu passaria as primeiras 12 horas a dormir", suspirou ela, cansada de acordar cedo todos os dias (quando tinha a sorte do mais pequeno a deixar dormir).

- "Podia ser, mas era um bocado um desperdício, não te lembras melhor de nada melhor para fazer?", perguntou, com aquela malícia no olhar que ela conhecia de cor.

- "Depende da companhia... Se fosse sozinha, ia dormir, de certeza... Mas talvez conhecesse alguém interessante e fizesse outras coisas...", riu-se.

- "Devias ir com alguém conhecido... Só tens 72 horas e vais perder tempo a conhecer alguém? Devias ir com alguém que conheças e alinhe. Alguém que não te julgue. Alguém que te acompanhe. Alguém que não te questione. Alguém que tenha a mesma dose de loucura do que tu. Alguém..."

Ela interrompeu-o:

- "Alguém como tu?"

- "Sim, tipo tu e eu... Vamos?", propôs.

- "Nunca daria certo, dariam pela nossa falta...", brincou ela.

- "Vamos levar isto a sério, traçar um plano...

Pagaram a conta e foram embora. E aquele plano iria ocupar-lhes todos os os tempos livres nas semanas que se seguiram.

Fizeram autênticos "brainstormings". Quando iriam? Quais os destinos? Que desculpas iam arranjar no trabalho e lá em casa? Mais importante ainda: o que iriam fazer nas 72 horas de fuga? Saborear em vez de simplesmente comer, beber o que lhes apetecesse, realizar fantasias sexuais de um e outro (e eram tantas), viajar sem pressas, visitar sítios pela primeira vez, cometer algumas loucuras?

Uma semana antes da data marcada, tudo estava decidido, mas ela lembrou-se de acrescentar uma regra que lhe parecia fundamental e ligou-lhe:

- "Olha, não podemos levar telemóvel. Se é para desligar do mundo tem que ser a sério".

- "Tens razão, faz sentido, telemóveis desligados a partir das 8h59 do dia 2 de fevereiro", concordou ele.

 

Ele

Dia 2 de fevereiro. 9h00. Ele está ligeiramente nervoso. Não a vê na central de autocarros onde combinaram encontrar-se. "Desistiu", pensa. Ela surge por trás dele (costuma ser ao contrário, ela é a distraída que é apanhada de surpresa).

- "Estou aqui há meia hora, queria fazer-te sofrer um bocadinho", admite.

- "És mesmo má, vais ter castigo...", diz, fingindo-se amuado.

Enquanto escolhem os lugares no autocarro, ele tem medo que ela tenho criado expectativas demasiado altas. E como parceiro de "crime", ele sente que as expetactivas dela em relação a ele também são altas. Suspira, enquanto reclina o assento. Teria sido boa ideia? Olha para ela, parece uma adolescente feliz mas assustada, numa saída às escondidas. E, no fundo, ela tem o seu quê de adolescente que os 40 (e muitos) não venceram. Será da ingenuidade com que vê o mundo, da paixão com que se entrega às pessoas e as coisas ou será apenas daquele mau feitio que a caracteriza? Quase a ler-lhe os pensamentos ela diz-lhe, sorrindo:

- "Ainda vais a tempo de sair, cúmplice..."

- "Estava mesmo a pensar nisso", confessa com uma gargalhada.

 

O livro

O autocarro já tinha feito alguns quilómetros quando ela lhe entrega um livro. Curioso, folheia-o. Está em branco... Não tem uma única letra impressa.

- "É o livro da nossa fuga. Vês? Não tem prólogo, índice, capítulos, agradecimentos, nem sequer epílogo... Quero que a nossa fuga seja assim, um livro em branco."

- "Lembras-te de cada uma, caramba", e ri-se, descontraído.

As 72 horas passaram. Fizeram tudo o que planearam. E mais além. Cumpriram os desejos que os corpos suplicavam. Sucumbiram às fantasias mais inconfessáveis. Renovaram as almas com a vivência da novidade e da autenticidade. Perderam-se no tempo, no espaço, nos sabores, nos cheiros, no toque. Esqueceram o mundo, lembraram-se de quem realmente eram e do que realmente queriam. E queriam-se um ao outro. Muito. De variadas formas. Nos mais diversos sentidos.

O livro não ficou em branco. Ele ia escrevendo, mas ela também. Pequenos textos, nomes de lugares, de restaurantes, de bares, de pessoas. Por vezes, eram apenas rabiscos. 

 

A folha

No dia em que regressou a casa, ele sentou-se no sofá e folheou o livro. Percebeu que tinha as folhas amarrotadas. E uma folha cor-de-rosa, presa com um clip, que destoava das outras. Era dela. Só podia ser.

Dizia apenas: "Foram as melhores 72 horas da minha vida. Mas deixaste de ser o meu cúmplice e agora és outra vez o meu marido. Já fui ao supermercado e deixei-te comida na cozinha para fazeres magia para o jantar. Chego às 21h. Beijo".