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Contos e ditos

A escrita é aquilo que eu sou. Por vezes, escrevo contos, outras vezes desabafos, um ou outro texto breve, alguns dias, poemas. Eu encontro-me na prosa, perco-me na poesia. Sempre de um jeito livre, simples e despretensioso, porque eu sou assim.

Contos e ditos

A escrita é aquilo que eu sou. Por vezes, escrevo contos, outras vezes desabafos, um ou outro texto breve, alguns dias, poemas. Eu encontro-me na prosa, perco-me na poesia. Sempre de um jeito livre, simples e despretensioso, porque eu sou assim.

12
Nov18

A fuga (I)

Inês Aroso

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Fez uma mala, pequena. Pouca roupa, dois livros, um álbum de fotografias. À noite, atrasou todos os relógios de casa duas horas, para não darem falta dela, pela manhã.

Eram seis horas quando abriu a porta, devagar, silenciosamente. Tinha treinado aquilo durante dias. Nada podia falhar. Era a última vez de descia aquelas escadas, que descia aquela rua, que via a varanda sempre impecavelmente decorada D.ª Lurdes, que passava à porta da padaria de todos os dias, que trilhava aquele caminho, tantas vezes feito.

Desapareceu tão completamente que, passados alguns meses, ninguém se lembrara que tinha existido. Nem ela mesma, internada, naquele hospital, negro de tão branco, conseguia recordar quem fora. Sabia que gostava de ler, de ver as fotografias antigas (que percebia serem dela, de quando existira) e, de vez, em quando, receber visitas de pessoas (família e amigos, diziam-lhe) que chegavam com voz doce, levavam-lhe livros, mas saíam alividas por irem embora.

Numa tarde de outono, lia um livro junto à janela, quando entrou alguém no quarto que a fez estremecer. Não eram as visitas do costume, não eram os médicos, não eram os enfermeiros. Era ela, a que fugira. Encontrou-se a si mesma. A fuga falhara.

(continua)

09
Nov18

Da (in)diferença

Inês Aroso

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Trabalhava há mais de uma dúzia de anos naquela escola. Um dia, adoeceu. Percebeu-se que seria algo grave, pois já tinha tido problemas de saúde anteriormente. Dos vários colegas que souberam que estava doente, poucos se interessaram ou tiveram um gesto ou uma palavra de apoio. "As melhoras", dizia-se (pelo menos) no tempo em que a alma era um dado adquirido no ser humano. As raras pessoas do trabalho que se preocuparam foram as mais improváveis: alunos e alguns colegas com quem convivia menos. Quando, naquela manhã, esperava pelo resultado de mais um exame médico, escreveu, no bloco de notas, que levava sempre consigo: "Doentes estão os outros. Que nunca adoeça a minha alma: eternamente sã, grata e generosa".

07
Nov18

Semibreve

Inês Aroso

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Escuta o bater do coração que se despe e sangra, frágil, mas sem medos.

Ouve o suspiro de quem ama tão intensamente que não entende o descompasso do ser amado.

Sente a melodia do desamor que parece um favor, um alívio, porque o amor é um fardo.

Não há aplausos no final: só tu, o teu amor e a música que só tu ouves.

Silêncio.

 

06
Nov18

Sofia a preto e branco

Inês Aroso

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Sofia tem 21 anos e é aluna finalista do mestrado em Gestão. Sempre foi a melhor aluna da turma, muito perfecionista, muito bem-comportada. Tem os cabelos castanhos, lisos, e tem uns olhos cor de mel, amendoados. Costuma usar roupa informal: jeans, sweat-shirts e sapatilhas.

O sonho dela é arranjar um bom trabalho e poder ajudar os pais: os seus ídolos. Sabe os sacrifícios que os pais fizeram ao longo de toda a vida para dar o melhor aos filhos (especialmente a mãe, Ângela), por isso, deixá-los orgulhosos com as suas boas notas e, daqui a uns anos, com um bom emprego são a sua motivação para dar sempre o máximo de si e, se possível, atingir a perfeição.

Porém, essa busca pela perfeição, a dada altura da vida de Sofia, passou a ser perniciosa. A ansiedade tomou-lhe os dias e as noites. Tinha ataques de pânico na rua, no supermercado, nas aulas… Ao início não se sabia o que era… Depois, quando se soube, teve vergonha de dizer a quem quer que fosse.

Os pais ajudaram-na, mas não contou a mais ninguém, nem às amigas. Quando tem uma crise mais aguda de ansiedade, diz que é das tensões baixas e vão buscar-lhe água com açúcar. O facto de não poder fazer imensas coisas de que gosta e se sentir diferente fez com que uma profunda tristeza acompanhasse a ansiedade, pelo que Sofia também sofre de depressão.

Esconde a medicação dos colegas e amigos, com medo de ser rotulada de “maluca”. Evita as situações que lhe causam ansiedade. E vive assim, como numa selva cheia de leões, que só ela vê, assustada e triste.